O problema dos intelectuais de esquerda no Brasil é que eles são estupidamente hipócritas. Para eles, o capitalismo não é um sistema ideológico contrário; é, antes, um inimigo a ser vencido. Representa tão somente um monstro terrível, o mal absoluto: corrupto, desumano e manipulador. Os intelectuais de esquerda (geralmente jornalistas, filósofos e escritores) vivem em um mundo à parte, em uma eterna Guerra Fria, onde a Esquerda é o paladino do povo, cruzado implacável contra as investidas dos cavaleiros sanguinários americanos/capitalistas/midiáticos, que saem de suas fortalezas imperiais para atribular os camponeses proletários sem cultura, ou melhor, aculturados. Esses pensadores de esquerda costumam julgarem-se os bastiões do tesouro cultural nacional, a voz das massas, os descortinadores da realidade, enfim, pontos de luz em um mundo de trevas, para usar termos rpgísticos.
O que não conseguem (ou não querem) entender é que a Esquerda também é uma linha ideológica possuidora de antecedentes e motivações, aliás, muito parecidos com os da direita, só que com o foco diferente.
Como ilustração, citarei o texto de José Lucas Alves Filho, que recebi de um amigo via email e que pode ser conferido neste link: http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=378
No texto, que critica a Rede Globo de Comunicações, acusando-a de conspirar com o Governo norte-americano, encontramos diversas incoerências mescladas a fatos legítimos. O texto é claro ao se mostrar contra o Capitalismo Autoritário. Ali, a emissora carioca é acusada de manipular culturalmente o povo a serviço dos poderosos. Mas, ao ler o artigo, fiquei me perguntando: “Manipulações e tramoias são exclusividade da “mídia capitalista”? Vamos analisar algumas afirmações do ilustre jornalista para chegarmos a uma conclusão.
“As lágrimas de William Bonner na ocasião da morte de Roberto Marinho são momentos apoteóticos de uma farsa que teve início 40 anos antes e que prejudicou o desenvolvimento cultural de um país.” (grifo meu)
Que farsa é essa? O autor responde mais adiante:
“não se trata aqui somente dos recursos tecnológicos e materiais indispensáveis para o suporte técnico do Capitalismo Autoritário, mas da função adquirida pelos mesmos na estratégia montada para a condução desse Capitalismo, em suas bases ideológicas e econômicas que exercerão o poder de fato na nova Sociedade Capitalista.”
Ah! Fica claro a opinião do autor que o Capitalismo é o responsável pelo atraso cultural de um país, por sua afirmação acima. Ou seja, de antemão o modelo deve ser erradicado para o avanço da cultura.
Essa aqui é a minha preferida:
“Conforme o livro “História Secreta da Rede Globo” (p.71)”
“Visto está que, após a ditadura, o sistema de comunicações brasileiro, capitaneado pela rede Globo, manteve-se intacto e até fortalecido, dentro dos padrões ideológicos definidos pelo grupo Time-Life na década de sessenta, em plena guerra fria.”
Ou seja, o livro citado é infalível. Sua autoridade está acima de contestação. Mas, veja a última frase. Que tem o grupo Time-Life a ver com a década de sessenta e a guerra fria? Ora, trata-se de uma tentativa forçosa do articulador em dizer que a empresa estava realmente ligada com o governo americano e que era uma tentativa de manipulação da América Latina, estranhamente sem mostrar um fato sequer que pudesse comprovar tal tese.
“E, pela importância e destaque que a Globo continua ocupando na mídia nacional, é evidente que este processo continuou a se fortalecer durante os últimos quinze anos.”
onus probandi é uma expressão latina que indica a responsabilidade de se mostrar provas para sustentar posições. Uma tática de argumentação é fugir desse encargo utilizando-se de expressões que sugerem evidência por si mesma, como “evidente”, “está claro que” ou “Todo mundo sabe que”. Se lermos o texto na íntegra, veremos várias acepções como esta, onde a frase citada é apenas um exemplo desse recurso de retórica, vazio em sua essência.
“Que a implantação da rede Globo no Brasil foi ilegal e fato criminoso é assunto já discutido e conhecido por uma grande parte da população pensante do país,”
Temos aqui uma desqualificação das pessoas que desconhecem o fato ou simplesmente discordam do autor como não pensantes, em uma simples análise estrutural.
“mas entender que este fato faz parte de um contexto econômico e político-social configurado na “globalização” das comunicações e que é o grande orientador ideológico do Capitalismo Autoritário, isto é que é preciso analisar e definir claramente.”
Como a globalização representa o xeque-mate do Capital, a esquerda vê isso como a própria besta apocalíptica. De uns anos pra cá, apenas fatos locais tomam o tempo da esquerda e o próprio ideal bolivariano muito apreciado em alguns setores radicais no país foi de pronto abandonado, temendo que no futuro se pudesse criar uma microglobalização ou talvez um neofascismo.
“Com isso estaremos dando argumentos para que os setores que ainda resistem aos avanços do Capitalismo Autoritário possam ser “sacudidos” em seus brios éticos e de compromisso com a nação, e passem a defender o direito das maiorias de impor seus interesses nos sistemas de comunicação de massa.”
Lembrou-me de um comentário do blog esquerdista Diário Gauche, onde um usuário refere-se à Yeda Crusius e seu governo (PSDB) como “O lado Negro da Força” e Lula, Tarso e afins (PT) como “O pessoal do bem”. http://diariogauche.blogspot.com/2009/02/governo-yeda-esta-por-um-fio.html
Continuando nossa análise
“Os jornais, censurados, dirigiram as notícias segundo os interesses da ditadura, que coincidiam com os Estados Unidos. Foi a era do “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. A subserviência aos americanos passou a ser completa, e assim continua até os dias atuais.”
Outra vez, sem o mínimo de provas que comprovem tal teoria.
“A estratégia, portanto, estava muito clara: tratava-se de apoderar-se dos meios de comunicação mais importantes dos países-chaves da América Latina – Brasil, Argentina, Venezuela e Colômbia, da mesma maneira como o mesmo Sr. Pullen vinha fazendo na Europa e no Oriente Médio, e a intenção, óbvia, era a de influir decisivamente na formação da consciência das gerações que formariam o novo mundo do terceiro milênio,que os Estados Unidos desejavam, estivessem sob seu controle.”
Novamente aqui, temos as decisões das grandes corporações internacionais como atreladas às vontades americanas, com o ótimo argumento do jornalista, a qual podemos resumir: é assim porque eu quero que seja.
“As medidas eram mais simples: da mesma forma como o americano é auto-endeusado, através da metáfora do super-homem, ou seja, a capacidade que qualquer indivíduo isolado nascido nos Estados Unidos tem de resolver qualquer tipo de problema, situação ou risco, o que é mostrado sistematicamente na filmografia americana, principalmente, mas nas demais produções que se fabricam naquele país, com o intuito de elevar a auto-estima desse povo, e leva-lo a considerar-se superior aos demais”
Fato curioso: esse tipo de gente costuma desconhecer a História. Ou melhor, a História corre em um tempo diferente. Ela começa com a ascensão dos EUA, após a segunda guerra e está presa à Guerra Fria. Alguém já disse a esses senhores que essa estratégia de “elevar a autoestima” foi amplamente utilizada no Romantismo em todo o mundo, inclusive no Brasil? Ora, será que Goethe, Stendhal, Victor Hugo, Balzac, Herculano, Garret, Walter Scott e José de Alencar foram igualmente vilões por terem a mesma atitude, alguns séculos antes? Como vemos (e a esquerda teima em não lembrar), o ‘aviltamento da nação’ não começou com os norte-americanos.
“a estratégia da Time-Life e do governo norte-americano em relação ao povo brasileiro era justamente a oposta: mostrar as mazelas do povo, as dificuldades sem solução, a incapacidade, a corrupção e o conformismo como base do espírito brasileiro, utilizando-se para isto, principalmente, das novelas da televisão e dos programas “bandeira dois” nas rádios locais.”
Novamente, o desconhecimento histórico. Machado de Assis deveria ter sido queimado vivo por ser o arauto da mídia capitalista.
“Ou seja, a Globo assume a orientação da educação, cria e financia os sistemas de divulgação, estabelece a programação e é reconhecida em todos os seus atos pelo Ministério da Educação. Fecha-se o círculo, e a formação da Consciência Nacional fica entregue aos objetivos da Rede Globo e de sua integração com o pensamento e ideologia norte-americana.”
Novamente aqui, temos a forçosa associação da mídia com o governo norte-americano simplesmente porque o autor quer que isso aconteça.
Resumidamente posso dizer que não existe diferença entre os discursos da direita e esquerda quando estas querem manipular as massas. As citações do texto mostram vários vazios a serem preenchidos por um leitor atento. A esquerda também engana, manipula, controla e tem uma preocupação em servir com um modelo que nem de longe está longe de falhas e reprovações, basta vermos os regimes stalinistas ou o recente chavismo. Se houve um acerto crítico da esquerda e dos socialistas no Brasil, foi conseguir incutir na mente da maioria da população de que essa linha de pensamento é a única e genuína representante do povo. Eis a idéia que sempre irei combater com bons argumentos e provas convincentes.